quinta-feira, 29 de julho de 2010

O MEL E O MONSTRO

A minúscula abelha conhece como nenhum humano engenharia e arquitetura. Seus favos são milimetricamente traçados e construídos, cuja simetria assombra pela beleza e perfeição. Mas não se detém nesse talento: realiza uma sociedade lastreada na convivência gregária e democrática, hierarquicamente bem organizada e definitiva, imune aos motins e insubordinações.
Imagine-se que aí se encerram as características de uma colméia. Para os incautos e selvagens seres humanos eis que, não bastassem essas obras de inatacável solidez, o pequenino ser alado produz seiva melíflua, único alimento que não se deteriora na natureza. Compare-se o mel com todos os outros alimentos existentes e/ou fabricados mecânica e artificialmente e ter-se-á o absoluto.
Lavoisier afirmou, no passado remoto, que "na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma." E o que se transforma perde forma e essência, para desenhar-se como sumo fétido, pó ou podridão. Com o ser humano - o mais imperfeito dos seres vivos - o tempo é senhor de seu desastre, quer do ponto de vista físico, quer do aspecto moral e característico. A história tem demonstrado não estarmos habilitados a falar em evolução, já que a predisposição para o belicismo e violência mantém-se inalterada no caráter humano, desde sua origem.
Maldizendo ou ignorando absolutamente a frugalidade proposta por Montesquieu, o humano dos tempos hodiernos se supera na monstruosidade. Longe da melifluidade e da agregação, eis que o ódio, o destempero, o desequilíbrio e a ferocidade tomam conta não raro e de não raros membros da espécie. As consequências são dignas do teatro de horrores a que assistimos na cena diária social brasileira, para tristeza, velas e lágrimas.
Nunca os extremos, diria o pensador francês. Antes o meio-termo, a frugal disposição para todas as ambições, como forma exemplar de vivenciamento das relações e da vida em sociedade.
A milimétrica abelhinha, com sua leveza, diafaneidade e alada disposição nos revela a existência concreta do imponderável. E nos presenteia com a realização da vida, sem traumas e ferrões.
Que dizer/pensar do humano jovem a embeber-se de álcool e drogas e a vociferar armas contra a incolumidade do seu semelhante? Que lamentar da sina gente/algoz capaz de matar inocentes, de interromper feérica luz dos infantes e jogar-lhes sobre o destino, sobre o sorriso ingênuo/álacre as tintas cinéreas da morte?
O Século trouxe a fera desvestida, revelada e insanamente cruel. São nossos vizinhos, parentes e semelhantes a tingir nosso dia de negro véu. Filhos que assassinam pais que estupram crianças que assistem aos horrores de um horizonte sem sol sem sal. Tudo sem vírgula. Drásticos enredos. Ponto final.
Edson Andrade é escritor, membro da Academia Montesclarense de Letras.

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